O Beco
10.10.2010 @ 10:32
Eu só vejo o beco, parado, imóvel, diante de minha dor
Ele não se importa com esperanças, com dores, com amores.
O Beco só se importa com o Beco.
E é isso o que o Beco é.
Não há tantas saídas para tal amado senhor
Preso num quarto, sufocado entre meu amor e minhas dores.
O Beco de si mesmo é o beco de mim próprio.
E é isso o que o Beco é.
Portas por todos os lados, numa parede decorada com um único quadro de flor
Vermelhas, brancas e negras, todas rodeadas na íntima atmosfera de terrores.
O Beco não se importa com o senhor.
E é isso o que o Beco é.
Em uma casa onde jardins floreiam apenas um corredor.
É onde corre tal pequena menina fugindo de meus piores temores.
O Beco só quer sua inocência.
Pois é apenas isso que o Beco é.
O Corredor me leva a um Beco sem saída, eu não posso fugir.
Lentamente, aprisiona-me, e deixa-me partida, eu não posso gritar.
O Beco nada mais é o que o Beco em seu coração.
E por mais que o magoe, ele jamais me pedirá perdão.
Pois o Beco nada mais é do que o Beco do homem.
O Beco interior, o vazio, sem defesa.
Em um corredor preenchido de portas negras por todos os lado, há um criado fiél.
Dá-me as costas, dá-me tortos sentimentos, dá-me nada de nada mais.
O Beco grita-me palavras dolorosas.
O Beco é teu, e nada mais.
O Beco grita-me palavras amorosas, pelos lábios de um criado cruel.
Há uma saída de um beco sem saída, viro-me contra ele sem enfrentá-lo jamais.
O Beco enfrenta-me com seus olhos negros, pede-me para enfrentá-lo.
O Beco não se importa com minha dor.
O Beco encara-me silenciosamente, em sua face pálida de vermelho, pede-me para enfrentá-lo.
Sigo em frente, passo por ele,
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Ren.
Gato Preto
9.18.2010 @ 20:44
Hoje:
Amo você.
Quero você.
Sofro por você.
Definho por você.
E no final do dia?
Mato!
Por você.
Ontem:
Odiei você.
Rejeitei você.
Humilhei você.
Só porque você é
A pequena coisa que eu
Gosto de chamar de combinado.
Amo hoje.
Odeio amanhã.
Venerei ontem.
Agora o desprezo.
Simples
Complexo.
Gosto de café.
Nicotina.
Dopamina.
Adrenalina.
Endorfina.
Mas gosto mais de
Você.
Mas eu sou, apenas, eu gato preto.
Eu tomo o meu café, fumo a nicotina
Injeto dopamina, produzo adrenalina.
Seduzo para conseguir
endorfina, mas
No final, nada me tira
Não.
Nada.
Nunca.
Jamais.
(Perdoará) a minha
abstinência de você.
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Ren.
Respirar
7.11.2010 @ 09:13
Diante de meus olhos, você está se derretendo,
lentamente.
Suas pupilas se dilatam e eu estou perdendo o meu chão,
para sempre.
Um, dois, três e quatro!
Através dos meus olhos eu posso ver tudo o que está te aprisionando.
Você está sucumbindo, mas você sabe que
Eu não consigo respirar quando você fala.
As minhas palavras estão vazias e nem mesmo você pode encontrar sentido nelas
As nossas ações estão combinadas como se nós fossemos um só,
Mas nossos corações e nossas faces jamais caberão em um mesmo espelho.
Todas as vezes que nossos corpos se encontram
Todas as vezes que os seus olhares perfuram os meus.
Eu sei, eu tenho certeza, nós estamos todos mortos.
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Ren.
Coração de Inverno
7.05.2010 @ 11:55
Eu tranquei a porta de minha casa e caminhei pelo hall de meu andar, odeio esperar pelo elevador. Em um prédio de tantos andares o certo seria haver mais de dois, mas quem dá ouvidos? Ninguém. Dois minutos esperando e então o elevador da esquerda chegou. Vazio, maravilha. Apenas o eu do espelho e eu. Sorri e ele me sorriu de volta. Respiramos fundo, ele sabia exatamente meus movimentos, não é? Afinal, nós somos nós. Andar térreo, caminhei pelo hall dos elevadores, pelo corredor que levava à sala de espera e então, depois de vários metros, cheguei à entrada e logo à portaria. A chuva caia aos poucos, eu pude perceber.
Mesmo com aquele grosso casaco de inverno, eu senti frio. Meu cachecol negro me cobria o pescoço do frio, mas não cobria minha alma fria que eu nem mesmo sabia onde ficava. Sorri levemente ao retirar o maço de cigarros do bolso. O porteiro me acenou, com um leve sorriso, acenei de volta. Acendi aquele cigarro de filtro vermelho no instante em que me vi fora daquele grande prédio onde morava. Sentia-me mais livre, como liberto de uma prisão após anos. A fumaça azul me envolveu o rosto, entrando em meus olhos, eu tive vontade de chorar. Mas apenas sorri, eu estava vivo, não é?
A chuva caia aos poucos, chuviscava, para dizer a verdade, mas aquele casaco cinza me protegia das gotas geladas. Sorri ao pensar na agulhada que receberia se alguma gota de chuva caísse em meu rosto, frio em pleno verão, não é? Por quantas ruas eu andei? Eu não sei, é a resposta. Meus pés me levaram para um Shopping Center, e eu nem mesmo sabia o nome. Olhei para o meu cigarro de filtro vermelho, seria o último antes de entrar naquele local de lojas. Uma última tragada e ele foi ao chão, esmagado por meu pé. Adeus, ó causador de câncer, foi um prazer tê-lo em meus pulmões, fodendo-me.
Ri internamente, entrando naquele enorme estabelecimento. As pessoas corriam de lojas em lojas, gastando todo o dinheiro que acumularam o ano inteiro. Gastando com presentes desinteressantes para pessoas que mal tinham contato. Filhos dos irmãos, primos, irmãos. Pessoas mantendo expectativas de que ganhariam algo interessante. Eu já não me iludia com isso. Meu crime passional. Sorri, caminhei por aquelas lojas por vários minutos, indo de andar em andar e então eu estava na área de alimentação. Um segundo para avaliar se estava com fome. E eu estava. Peguei uma daquelas filas enormes que só aquela famosa franquia de fast food tem, meu lanche como qualquer outro.
A coca-cola, a batata frita, o hambúrguer e a torta, a maravilhosa torta de maçã. Só faltava um cigarro ali. Por vários minutos procurei uma mesa, em vão até que um casal apaixonado desocupou e eu pude me sentar, para ao menos comer em paz. Erro meu, as pessoas nunca param de falar. Muito menos quando comem. Comi lentamente, saboreando cada centímetro daquele lanche de quase quinze reais, ouvindo o que os meus vizinhos de mesa diziam. “Com licença, esta cadeira está ocupada?” uma mocinha me perguntou. Seus quinze anos e seios maiores do que os de minha ex-namorada. Bonita, longos cabelos castanhos que tinha cachos nas pontas. Sorri docemente “Não. Pode levar”.
Ela sorriu docemente “Obrigada” e se afastou de mim, observei por alguns instantes aquele corpo de mulher num rosto de menina. As meninas de hoje em dia passavam o dia na academia malhando. Usavam as maquiagens das mães, roupas, sapatos. Dos onze aos treze anos elas já não eram mais as garotinhas dos papais. A vida muda tanto e essas garotinhas vivem para os garotos ao redor. Tão bonitas em suas faces, mas tão bebês em suas mentes. Elas crescem rápido demais... Tive que suspirar e olhar para outro lugar, não queria que ela me pegasse olhando-a. Quem gostaria de ter um cara de quase trinta anos lhe encarando? Poderiam achar que eu sou um tarado.
E mais uma vez “Esta cadeira está ocupada?”. Agora era uma menina mais velha, talvez dezoito anos, ou seus dezessete. Cabelo descolorido em um loiro bem claro e um piercing de argola negra no nariz. Do tipo que adora bancar a diferente... Calças extremamente apertadas, blusa branca com sutiã negro por baixo. E uma jaqueta jeans na cor vermelha. O lenço negro em seu pescoço. Alargador na orelha direita, me peguei imaginando em qual mamilo ela teria um piercing... E qual tatuagem seria a da vez. Dragões ou pétalas de flores japonesas? Saindo de minha linha de pensamentos, ergui meu rosto para aquela bonita menina, sorrindo, eu lhe disse gentilmente “Pode levar”.
Ela sorriu, virando-se e levando a cadeira consigo. O grupo de amigos estranhos a aguardavam a algumas mesas de distância da minha, mas eu ainda podia observá-la. Maços de cigarros e várias latinhas de cerveja, lanches da mesma franquia que eu. Coca-colas. Agora não precisava mais olhar para ela, quem precisa encarar menininhas no Shopping? Só os garotos que com elas querem transar. E eu não quero transar com ela. Só quero avaliá-la. Apenas isso. Voltei para meu lanche, a batata frita havia acabado, só me restava o lanche e a Coca-cola. O comi lentamente, saboreando a conversa alheia ao meu redor. Não tenho ninguém para conversar então só me restar ouvir a conversa dos outros. Não é?
Terminei meu lanche e agora só faltava a Coca-cola grande. Tomaria-a andando pelas lojas. Como bom cidadão, reciclei meu lixo e fui para o andar de cima. As pessoas continuavam a ir de loja em loja, comprando presentes para seus entes. Eu ganharia algo também? As pessoas me presenteariam com algo? Seria algo divertido ou algo que eu necessito? Mas isso pouco me importa. Não ligo para as falsidades que aparecem nestas datas dos anos. Não ligo, porque elas machucam. As brigas, os acidentes. A alcoolização. As farras. Não, eu pouco me importo com frivolidades. Por isso eu quero que essas datas se explodam. É, seria bem divertido.
Eu ando pelas lojas, as meninas me olham admiradas. Minha ex havia dito “Seus olhos oceânicos e seu cabelo castanho quase longo fazem de você um quase deus”. Nunca acreditara, nunca me achei bonito, um modelo. Acho-me um cara normal, que fuma muito, que possui um gato persa que pesa nove quilos. Em meu apartamento sou apenas eu e meu gato, meu violão e minha câmera. Guardo meus momentos de tristeza, de felicidade, guardo todos os momentos sofridos, doloroso. Alheios. Sou quase sozinho com meu gato gordo. Eu lhe faço companhia, ele me faz companhia, ambos estamos felizes. E isso é o bastante. No momento, eu não preciso de mais nada. Ou quase nada. Pois então não estaria mordendo o canudo do copo de Coca-cola. Preciso de um cigarro.
Uma loja me chamou a atenção. Loja de animais, se me entende. Meu gato gordo fica sozinho a maior parte do tempo, talvez seja bom para ele ter uma companhia, além de mim. E foi o que eu fiz, entrei naquela loja, procurando por um gato. Qualquer gato que me agradasse. Que agradasse meu gato gordo. E lá estava. Trancado em uma pequena jaula, um lindo gato negro de olhos amarelos. Um gato preto do azar, tão amaldiçoado. Sorri, era tão brilhante seu pêlo. Espesso, longo, seus bigodes brancos e aquele rabo felpudo. Aquele gato seria meu. Aproxime-me de sua jaula, ele me olhou com aqueles olhos amarelos, perfeitos. Poderia até já pensar nos nomes. Apolo para macho e Ártemis para fêmea.
Ártemis era a minha mais nova gata. Com ela naquela caixa de transporte, caminhei por aquele shopping novamente, mas agora eu queria a saída. E minha Ártemis, com um guizo no laço rosa que lhe enrolava o pescoço, como uma coleira. Sorri. Mais um bebê manhoso para me acordar aos domingos. Sorri novamente a me ver naquele vento gelado. Que a nicotina voltasse a meus pulmões! Meu Marlboro novamente em meus lábios, aquela fumaça entrando em meus pulmões, me fodendo aos poucos. Eu não me divirto muito, então eu fumo. Caminhei por várias ruas, várias mesmo, pois estava, relativamente, longe de casa.
E logo eu o vi, aquele prédio de vários andares, o mais alto do quarteirão, da rua. Com a fachada em branco, linhas em vinho. Era até bonito. Mas eu o comprara, o meu apartamento, por motivos profissionais. Eu amo a vista do vigésimo terceiro andar. É a mais fabulosa. E novamente eu estava voltando para aquele lugar. Suspirei, meu último cigarro de filtro vermelho no maço. Também, mal daria para fumar outro, já que eu me encontrava no hall de elevadores, esperando a boa vontade de algum deles aparecer. E o cinzeiro encontrou meu cigarro.
Entrei naquele grande elevador, o espelho me encarava curiosamente, e a minha Ártemis naquela caixinha, logo ela estaria solta naquele grande apartamento em que moro. Sorri e o espelho me sorriu de volta, cumprimentando-me. Vigésimo terceiro andar, e então o meu. Saindo daquele elevador, dei-me de cara com duas portas. A vermelha e a cor de madeira. A vermelha era a minha, por óbvias razões. Peguei a chave no bolso de trás de minha calça, a chave com um chaveiro prateado de guitarra. Bonito, não? Eu sei.
Sorri quando entrei naquela casa e o silêncio me dominou, é isso o que eu gosto, de quietude. Meu gordo gato parado, em frente à porta, esperando-me. Sorri para ele e logo ele se encontrava enrolado em minhas pernas. O típico de gatos que não têm o que fazer a não ser bajular o dono, em busca de algo. Interesseiro, mas fazer o quê? Eu amo esse maldito gato gordo. Ergui a jaula de minha Ártemis, provocando o olhar de meu Schrödinger. Meu gordo gato de cor branca. Peludo, fofo. Sorri, a porta fechada e eu caminhei até o meu sofá de couro vermelho, sintético, é claro.
A jaula aberta e a minha gatinha saindo timidamente, em frente a meu gato gordo. Olhares, atenção, silêncio. E eu apenas observando-os, sentado em meu sofá com outro Marlboro nos lábios. Silêncio e então cada gato para o seu lado, o meu gato gordo subindo no sofá, e agora em meu colo, ronronando. Ele é ciumento, não gostava nem de minhas namoradas. O prazer dele era me acordar de manhã ao pular nelas. E, convenhamos, é duro acordar com um gato de nove quilos pulando em seu estômago. Aposto que ele seria capaz de me quebrar uns ossos.
Deixei meus gatos na sala e passei por aquela parede vermelha. O vermelho sangue. Vermelho vinte e três. Amanhã seria um dia especial, por um acaso da vida, e eu só queria descansar. Deitar, curtir meus bebês felinos...
~ ~ ~
Susto. O ar fugindo de mim tão rapidamente quanto o cair de uma gota num dia de chuva. Abri meus olhos e vi a grande maldita bola de pelos em meu peito, olhando-me como se sorrisse. Fiz arte, papai, era o que ele dizia. E do meu lado, a minha gata, Ártemis. Negra em pêlos, linda em contraste com Schrödinger. Sorria para mim. Sorria docemente como se dissesse: Bom dia, papai. Era o que ela dizia. Tive que sorrir, meus filhotes acordando-me de maneira inesperada, na manhã de um domingo que era dia de Natal.
Aninharam-se em meus braços, cada um em um. Eram apenas onze da manhã, e meus gatos me acordaram. Fazer o quê? Estiquei meu braço até a cômoda, pegando o meu maço de Marlboro e o cinzeiro. Logo o causador de Câncer em meus lábios e o isqueiro acendendo-o. Meus gatos em meus braços. A fumaça azul pairando sobre minha cabeça. Eu estou bem com isso. Sorri, dia vinte e cinco de dezembro, dia de Natal. Dois gatos. Um Marlboro. Meu aniversário. O telefone tocando. Só falta uma xícara de cappuccino. Aí terei um Natal perfeito.
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Ren.
Nunca o Bastante
6.08.2010 @ 08:39
Não talentosa o bastante.
Não era capaz de vestir uma roupa adequada para as festas de bailes. Não tivera jamais uma educação diferenciada, baseada em outros países de línguas diferentes. Não sabia como fazer o cachorro dar a pata e nem o gato a fazer suas necessidades orgânicas na caixinha. Não era a melhor da classe, não era a melhor filha.
Não linda o bastante.
Não se diferenciava das garotas por uma beleza estonteante. Não tinha o cabelo mais lindo do baile. Seus olhos não eram daquele azul oceânico ou daquele verde esmeralda. Seu corpo não era o magrelo que todos buscavam na hora de usar a cama de mamãe. Seus cílios não eram de boneca e seus lábios não eram os mais desejados.
Não esperta o bastante.
Suas notas em matemática nunca foram as melhores, eram as piores. Geografia, literatura, inglês, nada lhe passava como uma nota boa, digna de um carinho de papai. Uma estrela dourada na testa da professora ou um bolinho de mamãe. Nunca viera com um dez no topo da prova nem com um 9, ou um 8, ou alguma nota que poderia lhe trazer algum sorriso.
Não magra o bastante.
Tentava fazer aquelas dietas loucas que circulavam na internet e na boca das amigas, em busca de perder os tão desejados 5 kg, para poder enfim entrar naquela calça. Inventava de ficar dias sem comer, só à base de água e Trident. No fim o que conseguiu foi humilhação pública. Não perdera os desejados kg e ainda ganhara uma gastrite de natal.
Não divertida o bastante.
Não tinha as melhores piadas na ponta da língua e seu humor era totalmente inexistente. Não fazia brincadeiras para animar o pessoal nas festas, e não era rodeada por um punhado de gente que lhe queria ouvir. As pessoas não a chamavam para ouvir suas histórias. Suas risadas eram estranhas e assustavam os outros.
Não o bastante para você.
Nunca foi o bastante para fazê-lo sorrir em admiração. Nunca foi o bastante talentosa para fazê-lo suspirar. Nunca foi linda o bastante para fazê-lo encará-la. Nunca foi esperta o bastante para fazê-lo elogiá-la. Nunca foi magra o bastante para fazê-lo levá-la para a cama. Nunca foi divertida o bastante para fazê-lo rir.
Nunca foi boa o bastante para ele.
Nunca será boa o bastante para você.
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Ren.
O Beco
10.10.2010 @ 10:32
Eu só vejo o beco, parado, imóvel, diante de minha dor
Ele não se importa com esperanças, com dores, com amores.
O Beco só se importa com o Beco.
E é isso o que o Beco é.
Não há tantas saídas para tal amado senhor
Preso num quarto, sufocado entre meu amor e minhas dores.
O Beco de si mesmo é o beco de mim próprio.
E é isso o que o Beco é.
Portas por todos os lados, numa parede decorada com um único quadro de flor
Vermelhas, brancas e negras, todas rodeadas na íntima atmosfera de terrores.
O Beco não se importa com o senhor.
E é isso o que o Beco é.
Em uma casa onde jardins floreiam apenas um corredor.
É onde corre tal pequena menina fugindo de meus piores temores.
O Beco só quer sua inocência.
Pois é apenas isso que o Beco é.
O Corredor me leva a um Beco sem saída, eu não posso fugir.
Lentamente, aprisiona-me, e deixa-me partida, eu não posso gritar.
O Beco nada mais é o que o Beco em seu coração.
E por mais que o magoe, ele jamais me pedirá perdão.
Pois o Beco nada mais é do que o Beco do homem.
O Beco interior, o vazio, sem defesa.
Em um corredor preenchido de portas negras por todos os lado, há um criado fiél.
Dá-me as costas, dá-me tortos sentimentos, dá-me nada de nada mais.
O Beco grita-me palavras dolorosas.
O Beco é teu, e nada mais.
O Beco grita-me palavras amorosas, pelos lábios de um criado cruel.
Há uma saída de um beco sem saída, viro-me contra ele sem enfrentá-lo jamais.
O Beco enfrenta-me com seus olhos negros, pede-me para enfrentá-lo.
O Beco não se importa com minha dor.
O Beco encara-me silenciosamente, em sua face pálida de vermelho, pede-me para enfrentá-lo.
Sigo em frente, passo por ele,
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Ren.
Gato Preto
9.18.2010 @ 20:44
Hoje:
Amo você.
Quero você.
Sofro por você.
Definho por você.
E no final do dia?
Mato!
Por você.
Ontem:
Odiei você.
Rejeitei você.
Humilhei você.
Só porque você é
A pequena coisa que eu
Gosto de chamar de combinado.
Amo hoje.
Odeio amanhã.
Venerei ontem.
Agora o desprezo.
Simples
Complexo.
Gosto de café.
Nicotina.
Dopamina.
Adrenalina.
Endorfina.
Mas gosto mais de
Você.
Mas eu sou, apenas, eu gato preto.
Eu tomo o meu café, fumo a nicotina
Injeto dopamina, produzo adrenalina.
Seduzo para conseguir
endorfina, mas
No final, nada me tira
Não.
Nada.
Nunca.
Jamais.
(Perdoará) a minha
abstinência de você.
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Ren.
Respirar
7.11.2010 @ 09:13
Diante de meus olhos, você está se derretendo,
lentamente.
Suas pupilas se dilatam e eu estou perdendo o meu chão,
para sempre.
Um, dois, três e quatro!
Através dos meus olhos eu posso ver tudo o que está te aprisionando.
Você está sucumbindo, mas você sabe que
Eu não consigo respirar quando você fala.
As minhas palavras estão vazias e nem mesmo você pode encontrar sentido nelas
As nossas ações estão combinadas como se nós fossemos um só,
Mas nossos corações e nossas faces jamais caberão em um mesmo espelho.
Todas as vezes que nossos corpos se encontram
Todas as vezes que os seus olhares perfuram os meus.
Eu sei, eu tenho certeza, nós estamos todos mortos.
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Ren.
Coração de Inverno
7.05.2010 @ 11:55
Eu tranquei a porta de minha casa e caminhei pelo hall de meu andar, odeio esperar pelo elevador. Em um prédio de tantos andares o certo seria haver mais de dois, mas quem dá ouvidos? Ninguém. Dois minutos esperando e então o elevador da esquerda chegou. Vazio, maravilha. Apenas o eu do espelho e eu. Sorri e ele me sorriu de volta. Respiramos fundo, ele sabia exatamente meus movimentos, não é? Afinal, nós somos nós. Andar térreo, caminhei pelo hall dos elevadores, pelo corredor que levava à sala de espera e então, depois de vários metros, cheguei à entrada e logo à portaria. A chuva caia aos poucos, eu pude perceber.
Mesmo com aquele grosso casaco de inverno, eu senti frio. Meu cachecol negro me cobria o pescoço do frio, mas não cobria minha alma fria que eu nem mesmo sabia onde ficava. Sorri levemente ao retirar o maço de cigarros do bolso. O porteiro me acenou, com um leve sorriso, acenei de volta. Acendi aquele cigarro de filtro vermelho no instante em que me vi fora daquele grande prédio onde morava. Sentia-me mais livre, como liberto de uma prisão após anos. A fumaça azul me envolveu o rosto, entrando em meus olhos, eu tive vontade de chorar. Mas apenas sorri, eu estava vivo, não é?
A chuva caia aos poucos, chuviscava, para dizer a verdade, mas aquele casaco cinza me protegia das gotas geladas. Sorri ao pensar na agulhada que receberia se alguma gota de chuva caísse em meu rosto, frio em pleno verão, não é? Por quantas ruas eu andei? Eu não sei, é a resposta. Meus pés me levaram para um Shopping Center, e eu nem mesmo sabia o nome. Olhei para o meu cigarro de filtro vermelho, seria o último antes de entrar naquele local de lojas. Uma última tragada e ele foi ao chão, esmagado por meu pé. Adeus, ó causador de câncer, foi um prazer tê-lo em meus pulmões, fodendo-me.
Ri internamente, entrando naquele enorme estabelecimento. As pessoas corriam de lojas em lojas, gastando todo o dinheiro que acumularam o ano inteiro. Gastando com presentes desinteressantes para pessoas que mal tinham contato. Filhos dos irmãos, primos, irmãos. Pessoas mantendo expectativas de que ganhariam algo interessante. Eu já não me iludia com isso. Meu crime passional. Sorri, caminhei por aquelas lojas por vários minutos, indo de andar em andar e então eu estava na área de alimentação. Um segundo para avaliar se estava com fome. E eu estava. Peguei uma daquelas filas enormes que só aquela famosa franquia de fast food tem, meu lanche como qualquer outro.
A coca-cola, a batata frita, o hambúrguer e a torta, a maravilhosa torta de maçã. Só faltava um cigarro ali. Por vários minutos procurei uma mesa, em vão até que um casal apaixonado desocupou e eu pude me sentar, para ao menos comer em paz. Erro meu, as pessoas nunca param de falar. Muito menos quando comem. Comi lentamente, saboreando cada centímetro daquele lanche de quase quinze reais, ouvindo o que os meus vizinhos de mesa diziam. “Com licença, esta cadeira está ocupada?” uma mocinha me perguntou. Seus quinze anos e seios maiores do que os de minha ex-namorada. Bonita, longos cabelos castanhos que tinha cachos nas pontas. Sorri docemente “Não. Pode levar”.
Ela sorriu docemente “Obrigada” e se afastou de mim, observei por alguns instantes aquele corpo de mulher num rosto de menina. As meninas de hoje em dia passavam o dia na academia malhando. Usavam as maquiagens das mães, roupas, sapatos. Dos onze aos treze anos elas já não eram mais as garotinhas dos papais. A vida muda tanto e essas garotinhas vivem para os garotos ao redor. Tão bonitas em suas faces, mas tão bebês em suas mentes. Elas crescem rápido demais... Tive que suspirar e olhar para outro lugar, não queria que ela me pegasse olhando-a. Quem gostaria de ter um cara de quase trinta anos lhe encarando? Poderiam achar que eu sou um tarado.
E mais uma vez “Esta cadeira está ocupada?”. Agora era uma menina mais velha, talvez dezoito anos, ou seus dezessete. Cabelo descolorido em um loiro bem claro e um piercing de argola negra no nariz. Do tipo que adora bancar a diferente... Calças extremamente apertadas, blusa branca com sutiã negro por baixo. E uma jaqueta jeans na cor vermelha. O lenço negro em seu pescoço. Alargador na orelha direita, me peguei imaginando em qual mamilo ela teria um piercing... E qual tatuagem seria a da vez. Dragões ou pétalas de flores japonesas? Saindo de minha linha de pensamentos, ergui meu rosto para aquela bonita menina, sorrindo, eu lhe disse gentilmente “Pode levar”.
Ela sorriu, virando-se e levando a cadeira consigo. O grupo de amigos estranhos a aguardavam a algumas mesas de distância da minha, mas eu ainda podia observá-la. Maços de cigarros e várias latinhas de cerveja, lanches da mesma franquia que eu. Coca-colas. Agora não precisava mais olhar para ela, quem precisa encarar menininhas no Shopping? Só os garotos que com elas querem transar. E eu não quero transar com ela. Só quero avaliá-la. Apenas isso. Voltei para meu lanche, a batata frita havia acabado, só me restava o lanche e a Coca-cola. O comi lentamente, saboreando a conversa alheia ao meu redor. Não tenho ninguém para conversar então só me restar ouvir a conversa dos outros. Não é?
Terminei meu lanche e agora só faltava a Coca-cola grande. Tomaria-a andando pelas lojas. Como bom cidadão, reciclei meu lixo e fui para o andar de cima. As pessoas continuavam a ir de loja em loja, comprando presentes para seus entes. Eu ganharia algo também? As pessoas me presenteariam com algo? Seria algo divertido ou algo que eu necessito? Mas isso pouco me importa. Não ligo para as falsidades que aparecem nestas datas dos anos. Não ligo, porque elas machucam. As brigas, os acidentes. A alcoolização. As farras. Não, eu pouco me importo com frivolidades. Por isso eu quero que essas datas se explodam. É, seria bem divertido.
Eu ando pelas lojas, as meninas me olham admiradas. Minha ex havia dito “Seus olhos oceânicos e seu cabelo castanho quase longo fazem de você um quase deus”. Nunca acreditara, nunca me achei bonito, um modelo. Acho-me um cara normal, que fuma muito, que possui um gato persa que pesa nove quilos. Em meu apartamento sou apenas eu e meu gato, meu violão e minha câmera. Guardo meus momentos de tristeza, de felicidade, guardo todos os momentos sofridos, doloroso. Alheios. Sou quase sozinho com meu gato gordo. Eu lhe faço companhia, ele me faz companhia, ambos estamos felizes. E isso é o bastante. No momento, eu não preciso de mais nada. Ou quase nada. Pois então não estaria mordendo o canudo do copo de Coca-cola. Preciso de um cigarro.
Uma loja me chamou a atenção. Loja de animais, se me entende. Meu gato gordo fica sozinho a maior parte do tempo, talvez seja bom para ele ter uma companhia, além de mim. E foi o que eu fiz, entrei naquela loja, procurando por um gato. Qualquer gato que me agradasse. Que agradasse meu gato gordo. E lá estava. Trancado em uma pequena jaula, um lindo gato negro de olhos amarelos. Um gato preto do azar, tão amaldiçoado. Sorri, era tão brilhante seu pêlo. Espesso, longo, seus bigodes brancos e aquele rabo felpudo. Aquele gato seria meu. Aproxime-me de sua jaula, ele me olhou com aqueles olhos amarelos, perfeitos. Poderia até já pensar nos nomes. Apolo para macho e Ártemis para fêmea.
Ártemis era a minha mais nova gata. Com ela naquela caixa de transporte, caminhei por aquele shopping novamente, mas agora eu queria a saída. E minha Ártemis, com um guizo no laço rosa que lhe enrolava o pescoço, como uma coleira. Sorri. Mais um bebê manhoso para me acordar aos domingos. Sorri novamente a me ver naquele vento gelado. Que a nicotina voltasse a meus pulmões! Meu Marlboro novamente em meus lábios, aquela fumaça entrando em meus pulmões, me fodendo aos poucos. Eu não me divirto muito, então eu fumo. Caminhei por várias ruas, várias mesmo, pois estava, relativamente, longe de casa.
E logo eu o vi, aquele prédio de vários andares, o mais alto do quarteirão, da rua. Com a fachada em branco, linhas em vinho. Era até bonito. Mas eu o comprara, o meu apartamento, por motivos profissionais. Eu amo a vista do vigésimo terceiro andar. É a mais fabulosa. E novamente eu estava voltando para aquele lugar. Suspirei, meu último cigarro de filtro vermelho no maço. Também, mal daria para fumar outro, já que eu me encontrava no hall de elevadores, esperando a boa vontade de algum deles aparecer. E o cinzeiro encontrou meu cigarro.
Entrei naquele grande elevador, o espelho me encarava curiosamente, e a minha Ártemis naquela caixinha, logo ela estaria solta naquele grande apartamento em que moro. Sorri e o espelho me sorriu de volta, cumprimentando-me. Vigésimo terceiro andar, e então o meu. Saindo daquele elevador, dei-me de cara com duas portas. A vermelha e a cor de madeira. A vermelha era a minha, por óbvias razões. Peguei a chave no bolso de trás de minha calça, a chave com um chaveiro prateado de guitarra. Bonito, não? Eu sei.
Sorri quando entrei naquela casa e o silêncio me dominou, é isso o que eu gosto, de quietude. Meu gordo gato parado, em frente à porta, esperando-me. Sorri para ele e logo ele se encontrava enrolado em minhas pernas. O típico de gatos que não têm o que fazer a não ser bajular o dono, em busca de algo. Interesseiro, mas fazer o quê? Eu amo esse maldito gato gordo. Ergui a jaula de minha Ártemis, provocando o olhar de meu Schrödinger. Meu gordo gato de cor branca. Peludo, fofo. Sorri, a porta fechada e eu caminhei até o meu sofá de couro vermelho, sintético, é claro.
A jaula aberta e a minha gatinha saindo timidamente, em frente a meu gato gordo. Olhares, atenção, silêncio. E eu apenas observando-os, sentado em meu sofá com outro Marlboro nos lábios. Silêncio e então cada gato para o seu lado, o meu gato gordo subindo no sofá, e agora em meu colo, ronronando. Ele é ciumento, não gostava nem de minhas namoradas. O prazer dele era me acordar de manhã ao pular nelas. E, convenhamos, é duro acordar com um gato de nove quilos pulando em seu estômago. Aposto que ele seria capaz de me quebrar uns ossos.
Deixei meus gatos na sala e passei por aquela parede vermelha. O vermelho sangue. Vermelho vinte e três. Amanhã seria um dia especial, por um acaso da vida, e eu só queria descansar. Deitar, curtir meus bebês felinos...
~ ~ ~
Susto. O ar fugindo de mim tão rapidamente quanto o cair de uma gota num dia de chuva. Abri meus olhos e vi a grande maldita bola de pelos em meu peito, olhando-me como se sorrisse. Fiz arte, papai, era o que ele dizia. E do meu lado, a minha gata, Ártemis. Negra em pêlos, linda em contraste com Schrödinger. Sorria para mim. Sorria docemente como se dissesse: Bom dia, papai. Era o que ela dizia. Tive que sorrir, meus filhotes acordando-me de maneira inesperada, na manhã de um domingo que era dia de Natal.
Aninharam-se em meus braços, cada um em um. Eram apenas onze da manhã, e meus gatos me acordaram. Fazer o quê? Estiquei meu braço até a cômoda, pegando o meu maço de Marlboro e o cinzeiro. Logo o causador de Câncer em meus lábios e o isqueiro acendendo-o. Meus gatos em meus braços. A fumaça azul pairando sobre minha cabeça. Eu estou bem com isso. Sorri, dia vinte e cinco de dezembro, dia de Natal. Dois gatos. Um Marlboro. Meu aniversário. O telefone tocando. Só falta uma xícara de cappuccino. Aí terei um Natal perfeito.
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Ren.
Nunca o Bastante
6.08.2010 @ 08:39
Não talentosa o bastante.
Não era capaz de vestir uma roupa adequada para as festas de bailes. Não tivera jamais uma educação diferenciada, baseada em outros países de línguas diferentes. Não sabia como fazer o cachorro dar a pata e nem o gato a fazer suas necessidades orgânicas na caixinha. Não era a melhor da classe, não era a melhor filha.
Não linda o bastante.
Não se diferenciava das garotas por uma beleza estonteante. Não tinha o cabelo mais lindo do baile. Seus olhos não eram daquele azul oceânico ou daquele verde esmeralda. Seu corpo não era o magrelo que todos buscavam na hora de usar a cama de mamãe. Seus cílios não eram de boneca e seus lábios não eram os mais desejados.
Não esperta o bastante.
Suas notas em matemática nunca foram as melhores, eram as piores. Geografia, literatura, inglês, nada lhe passava como uma nota boa, digna de um carinho de papai. Uma estrela dourada na testa da professora ou um bolinho de mamãe. Nunca viera com um dez no topo da prova nem com um 9, ou um 8, ou alguma nota que poderia lhe trazer algum sorriso.
Não magra o bastante.
Tentava fazer aquelas dietas loucas que circulavam na internet e na boca das amigas, em busca de perder os tão desejados 5 kg, para poder enfim entrar naquela calça. Inventava de ficar dias sem comer, só à base de água e Trident. No fim o que conseguiu foi humilhação pública. Não perdera os desejados kg e ainda ganhara uma gastrite de natal.
Não divertida o bastante.
Não tinha as melhores piadas na ponta da língua e seu humor era totalmente inexistente. Não fazia brincadeiras para animar o pessoal nas festas, e não era rodeada por um punhado de gente que lhe queria ouvir. As pessoas não a chamavam para ouvir suas histórias. Suas risadas eram estranhas e assustavam os outros.
Não o bastante para você.
Nunca foi o bastante para fazê-lo sorrir em admiração. Nunca foi o bastante talentosa para fazê-lo suspirar. Nunca foi linda o bastante para fazê-lo encará-la. Nunca foi esperta o bastante para fazê-lo elogiá-la. Nunca foi magra o bastante para fazê-lo levá-la para a cama. Nunca foi divertida o bastante para fazê-lo rir.
Nunca foi boa o bastante para ele.
Nunca será boa o bastante para você.
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Ren.